Sexta Feira 13 (1)

Antecipo a postagem desse blog um dia antes da sexta-feira 13, porque no mesmo dia 13(amanhã) estarei de viagem pra João Pessoa,portanto, sem tempo para escrever no dia de amanhã.

Aproveitando um raro momento de inspiração neste tortuoso mês de julho, transcrevo abaixo uma poesia de Álvares de Azevedo: trágico literato do séc. XIX em pleno Brasil imperial, bêbado, imberbe, cabaço, liso e derrotado. Eis aqui o motivo da “desgraça” de Álvares de Azevedo, este seguidor de Byron.

Um belo ilustrativo pra uma sexta-feira 13 memorável.

MINHA DESGRAÇA

Álvares de Azevedo

Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco…
E, meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco…

Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro…
Eu sei… O mundo é um lodaçal perdido
cujo sol (quem mo dera) é o dinheiro…

Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que meu peito assim blasfema,
É ter por escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.

Mais embaixo, uma bela reflexão sobre os momentos finais da vida,por Raul dos Santos Seixas, o ilustre roqueiro baiano, trazida no álbum “Há Dez Mil Anos Atrás”. Música intitulada “Canto Para a Minha Morte”.

Canto Para Minha Morte
Composição: Raul Seixas e Paulo Coelho

Eu sei que determinada rua que eu já passei,
Não tornará a ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela ultima vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida?
Existem tantas… um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada.
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio…

Oh morte, tu que es tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite…
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida.

Meus votos pelas mais sinceras impressões negativas nesta, digamos assim, sexta-feira da desgraça.

Esse lobo com cara de javali(ou o contrário) na foto abaixo deve ter alguma parte com o cão, por isso decidi ilustrar este post com tão bizarra figura.

No mais, é isso.

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